segunda-feira, 17 de abril de 2017

Niterói já compra armas para a Guarda Municipal combater o crime



Rodrigo Neves (PV), prefeito de Niterói, jura que não é candidato ao governo do Rio de Janeiro. Há cem dias no cargo, o sorriso frouxo e as análises que traça sobre o governo estadual, no entanto, dão a entender o contrário. Segundo ele, que frisa ser o único prefeito reeleito de toda a Região Metropolitana fluminense, “o Estado está à beira de uma convulsão social”. Ele também critica as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e não descarta apoiar o impeachment do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Nosso principal problema é a violência. Mas, pela primeira vez, desde a implantação das UPPs, os índices de Niterói — que são absurdos — ficaram abaixo dos da cidade do Rio. E isso se deve à cooperação que eu fiz com as forças policiais do estado desde 2013. Paguei o 13º salário dos policiais (uma referência ao bônus de R$ 3.500 pagos aos agentes em fevereiro). Por isso, em Niterói, as delegacias funcionaram, mesmo na greve. Não tenho dúvida que se não tivéssemos ajudado os policiais, o cenário de Niterói seria igual ao de São Gonçalo, Itaboraí e da Baixada Fluminense. Se for necessário, vou pagar outro auxílio à polícia. Vamos remunerar as tropas especiais (Bope e Choque) para atuarem na cidade. A prefeitura vai pagar de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões pelo Regime Adicional de Serviço (RAS).

É a crise que tem provocado esse aumento na violência?

O desemprego e a crise. Mas houve um erro na política de segurança com a implantação, sem qualquer planejamento, das Unidades de Polícia Pacificadora.

O senhor é a favor do fim das UPPs?

Não. Acho que é preciso redimensionar os efetivos e a logística do projeto. Foi um grave erro colocar os dez mil policiais formados nesse período em UPPs. Belford Roxo tem 500 mil pessoas e 200 policiais, enquanto a Vila Kennedy (comunidade com UPP na Zona Oeste do Rio) tem 30 mil habitantes e o mesmo efetivo. Não era mais razoável reforçar um batalhão como o de Belford Roxo, que lida com a vida de 500 mil pessoas, do que fazer essa UPP na Vila Kennedy? Houve grave erro nessa expansão sem contemplar a Região Metropolitana.

O armamento da Guarda Municipal vai sair?

No dia 17 (segunda-feira), começa o curso de formação (com duração de três meses) dos 30 primeiros guardas municipais que vão utilizar o armamento letal; será um projeto piloto. Já estamos comprando as armas, pistolas... O treinamento vai ser com o armamento da Polícia Militar. Essa turma vai atuar, num primeiro momento, no Cisp, na Cidade da Ordem Pública e na sede da Polícia Federal. Não vai atuar na rua, porque antes vamos fazer o plebiscito (a consulta pública estava prevista para o primeiro trimestre deste ano, mas foi adiada para o segundo semestre).

Qual será a função da Guarda armada na segurança da cidade?

Estou convencido que a transformação da Guarda em polícia comunitária vai ser bem-sucedida. Niterói tem um perfil socioeconômico distinto das cidades da Região Metropolitana; 80% dos nossos agentes têm ensino superior. Os riscos de desvios são menores do que os ganhos que a sociedade vai ter. A Guarda não vai substituir a PM no enfrentamento ao tráfico, mas vai ser bem-sucedida em ações que a PM deixou de fazer no asfalto e nos parques.

O senhor será candidato a governador em 2018?

Gente, eu fiz 40 anos agora, estou muito novo (risos). Estou muito animado com Niterói. Quem vive na cidade sabe que pegamos Niterói numa situação caótica, na pior crise. O déficit era de R$ 500 milhões, e a capacidade de investimento era de R$ 50 milhões por ano. Não tinha nem lâmpada para a manutenção da iluminação pública. A obra do mergulhão da Marquês do Paraná estava parada. Era uma crise muito parecida com a do Estado. Todas as questões foram equacionadas.

E essa experiência não lhe credencia ao governo do estado?

Não estou focado em eleição, sinceramente. Estou pensando em Niterói. Minha meta é terminar o governo em 2020, fazer um doutorado de um ano em Sociologia do Direito. No Brasil ou fora.

Como o Rio chegou a essa situação (de crise)?

O Estado acabou, gente. Acho que tem que ter uma solução institucional para a crise do Rio. Estamos à beira de uma convulsão social. Ganhei a eleição dia 30 de outubro e não viajei para descansar. Fiz dezenas de reuniões com nossa equipe e com economistas para traçar cenários futuros. Em 15 dias, eu sabia o tamanho da encrenca que eu teria em 2017 e 2018. Se o governo federal não prestar o auxílio que o Rio precisa, em 20 dias, nós iremos para um quadro de anomia.

O senhor apoia o impeachment do governador Luiz Fernando Pezão?

Eu falei com o Moreira Franco (ministro da Secretaria Geral da Presidência e cogitado como interventor no estado) semana passada: se acontecer no Rio o que houve no Espírito Santo, as consequências serão muito mais graves. Isso considerando a organização e o poder bélico da bandidagem. O governo federal não está entendendo a dimensão do problema. Ocorrendo isso, todas as possibilidades vão ter que ser analisadas, inclusive intervenção ou a substituição do governador Pezão. O problema é que não há legitimidade no interventor ou no governador eleito pela Alerj. Tem que haver a refundação do Estado.

Niterói vai sobreviver à crise?

Nos próximos três anos a cidade tem uma agenda maravilhosa. Investimos em ferramentas das mais avançadas para a gestão da cidade, e o programa Niterói Resiliente teve 47 medidas que começamos a implantar em 15 de novembro.

O senhor adotou medidas impopulares, principalmente em relação ao funcionalismo público.

Nós estruturamos um novo ciclo de reformas e ajustes. E fizemos um plano com algumas medidas impopulares. Este ano acabamos com o subsídio que a prefeitura dava a quem pagava o IPTU parcelado (a prefeitura cobrou juro de 1% ao mês nas parcelas). Tem desgaste, mas essa medida foi importante — e não é aumento de imposto —; arrecadou R$ 20 milhões este ano. Economizamos outros R$ 20 milhões com corte de cargos; e aprovamos o aumento da alíquota previdenciária dos servidores (que era de 11% e subiu para 12,5%), entre outras medidas.

O senhor tem conversado com os prefeitos da região sobre gestão?

Tenho conversado muito com os prefeitos de São Gonçalo (José Luiz Nanci) e Itaboraí (Dr. Sadinoel). Boa parte dos decretos que eles fizeram nesse início de governo envolveu temas que conversamos nessa transição. Estamos estruturando um túnel ligando Itaipu a Itaipuaçu com a Prefeitura de Maricá.

A relação com o Fabiano Horta (prefeito de Maricá) é mais fácil do que com o Quaquá (ex-prefeito)?
O novo prefeito é mais tranquilo (risos). Acho que está mais atento à gestão. Não sou mais do PT, mas tenho um bom relacionamento com o partido. Só não tenho bom relacionamento com a turma de Bolsonaro e com o PSOL.

Sua oposição...

Hoje minha oposição é a extrema direita e a extrema esquerda. O filhote do Bolsonaro (Carlos Jordy, do PSC) e o admirador do Trótsky (Paulo Eduardo Gomes, do PSOL). Eles estão sem discurso, então ficam contando história ou dando medalha para o Bolsonaro. O camarada vai para uma palestra dizer que os afrodescendentes não servem nem para procriar. Como um parlamentar tem a coragem de dizer isso? Estamos vivendo tempos loucos. Espero que a Câmara não aprove isso.
Qual vai ser o seu maior legado?

Acho que o maior legado que vou deixar não é a maior obra da história da cidade (a Transoceânica) ou de ter sido o prefeito que mais construiu escolas. É a profissionalização da administração, com mudança de mentalidade, o Portal da Transparência e outras medidas. Acho que é muito difícil, independentemente de quem assuma em 2020, voltarmos ao tempo da administração anterior, em que Niterói não tinha informação de nada.

Leia mais: http://extra.globo.com 

Nenhum comentário: