Câmara continuará investigando inauguração de UTIs no HMNSE com equipamentos emprestados


Apesar do anúncio do novo secretário municipal de Saúde, Marcus Curvelo, divulgado pela prefeitura na sexta-feira (11.12), a Câmara de Vereadores continuará as ações de fiscalização nas unidades de urgência e emergência da rede pública municipal, com foco especial na denúncia de que a nova Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Municipal Nelson de Sá Éarp, foi inaugurada com equipamentos emprestados de outros hospitais. “É uma situação muito grave que precisa ser apurada. A Câmara estará ao lado do Ministério Público Estadual neste trabalho, contribuindo com tudo que for possível”, anunciou o presidente da Câmara de Vereadores, Paulo Igor (PMDB), lembrando que as vistorias da Comissão de Saúde às unidades de urgência e emergência continuarão acontecendo.

Em audiência especial na 4ª Vara Cível na tarde de quarta-feira (09.12) os diretores geral, médico e administrativo do HMNSE confirmaram o juiz Jorge Luiz Martins, titular da Vara, que para que nove leitos de UTI  entrassem em funcionamento, equipamentos foram emprestados pelos hospitais Alcides Carneiro (HAC) e Santa Teresa (HST). Além do presidente da Câmara, a audiência foi acompanhada pelo presidente da Comissão de Saúde, Silmar Fortes (PMDB), e pela vereadora Gilda Beatriz (PMDB), também integrante da Comissão. Diante do juiz, os diretores do HMNSE relataram também a “troca” de medicamentos com o Hospital Unimed e com outras unidades de Saúde, até mesmo de municípios vizinhos, como Areal.  

Os diretores informaram ainda que o município recebeu do governo do Estado camas hospitalares, monitores multiparâmetro e um aparelho de raio-X.  A inauguração da nova UTI aconteceu no dia 19 do mês passado. Na ocasião, a prefeitura anunciou que o espaço foi totalmente ampliado e reformado, passando de sete para 10 leitos. Ao juiz, os diretores informaram que dos 10 leitos anunciados pelo município, nove estão funcionando – todos eles, porém, com parte dos equipamentos emprestada de outros hospitais.

“Em relação aos aparelhos da UTI, nós estamos agora com nove leitos, faltando um para ser aberto, necessitando de cinco bombas de infusão. Quanto aos aparelhos, nós temos quatro ventiladores mecânico (respiradores) do HMNSE, três ventiladores vieram do HAC, emprestados, e três do HST, também emprestados. Além disso, temos três ventiladores mecânicos em uso na urgência. Temos outros três aguardando manutenção e um na reserva, o qual deve ficar em “stand by” para atender os casos de emergência. Dos materiais da UTI que vieram do Estado, repassados para o Município, nós utilizamos na UTI dez camas hospitalares elétricas, dez monitores multi-parametros, sendo cinco básicos e cinco completos. Quanto aos suportes (suporte usados para fixar as bombas infusoras), recebemos nove emprestados do HST, e quanto as próprias bombas infusoras, 10 ao todo, vieram do HAC, todas funcionando, inclusive, com todo o equipo incluído”, disse o diretor geral do HMNSE, Geraldo Menezes, lembrando que o aparelho de Raio X enviado pelo Estado ainda não está instalado por que está em curso o processo licitatório para instalação para o serviço.

Na inicial da Ação, o Ministério Público questiona a inauguração da nova UTI. “Inaugurar o que? Se de fato a unidade ainda está fisicamente localizada nas dependências de outro hospital. E mais, se de acordo com informação verbal do próprio prefeito, ainda não foram adquiridos equipamentos para guarnecer os 3 leitos extras da nova UTI. Aliás, ao que consta, nem mesmo os leitos de UTI do HAC estariam totalmente equipados com  maquinário próprio e estariam sendo emprestados equipamentos desta unidade”, consta da inicial da ação lida pelo juiz Jorge Luiz Martins na audiência. 

Marcus Curvelo, que foi diretor do HMNSE durante o governo do então prefeito Paulo Mustrangi, assume a Secretaria de Saúde, em substituição a André Pombo, que ficou à frente da pasta por dois anos e meio. A substituição acontece no momento em que a o sistema de saúde se encontra em estado de caos. “A questão da Saúde hoje no município é muito séria. Vemos o problema da saúde sendo tratado como se estivesse resumido a abertura ou fechamento das UPAs, mas está muito longe disso.  São questões extremamente complexas, de organização da rede e de fluxo, que precisam ser melhoradas”, considerou durante a audiência a promotora Vanessa Katz, que está apurando a inaugurações das UTIs com equipamentos emprestados.

“É preciso reestruturar, reorganizar a rede. O município precisa de uma reforma sanitária”, completa o vereador Silmar Fortes.  

O MP apura também  o uso de recursos públicos para custar as comemorações pela inauguração. Os diretores, no entanto, sustentam que “a festa foi patrocinada pela direção”. Ainda segundo os diretores,os gêneros para a festa custaram R$ 185, e foram adquiridos no cartão de crédito de uma nutricionista do hospital.   

Diretores confirmaram situação de caos no HMNSE

Conforme já havia sido apurado em vistorias feitas pela Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores e pelo MPE, diretores confirmaram ao juiz da 4ª vara que faltam médicos, medicamentos, equipamentos e infraestrutura adequada para o trabalho dos profissionais no HMNSE. Atrasos nos pagamentos a fornecedores de medicamentos e a hospitais conveniados agravam o quadro. Entre os meses de setembro e novembro, 23.397 pessoas passaram pela unidade. Somente entre os dias 1º e 7 deste mês foram registrados 1.798 atendimentos.

A emergência do Hospital Municipal Nelson de Sá Earp dispõem de 10 leitos de psiquiatria, oito leitos na sala de atendimento à mulheres e sete leitos na sala de  atendimento aos homens. “Chegamos a ter 26 pacientes, 22 somente na sala de homens, em um único dia”, disse o diretor Geraldo Menezes.

Ao passo que a demanda por atendimento é grande, os plantões médicos, que durante a semana têm oito clínicos e quatro ortopedistas, no fim de semana ficam defasados.
“Aos sábados a unidade conta apenas com um ou dois plantonistas na emergência. Aos domingos temos seis médicos à noite e nenhum durante o dia”, relata o diretor médico Alexandre Brêtas, lembrando que a direção vem buscando uma solução.

A demora nas transferências de pacientes para outras unidades de saúde e os problemas relativos à falta de medicamentos também preocupam os diretores. O HMNSE conta com 36 leitos no Centro de Reabilitação de Adultos (CRA), dos quais 15 são destinados a pacientes que precisam de procedimentos de ortopedia e outros 21 para clínica médica  (9 femininos e 12 masculinos). Na unidade o tempo médio de espera por transferência para procedimentos pode levar meses.

"O tempo ideal para um caso de fratura de fêmur, por exemplo, de acordo com a literatura médica, deve ser de 48h. A partir daí, o paciente pode desenvolver complicações, como cardiopatias, diabetes e outras, inclusive infecções”, esclarece o diretor médico. 

“Há meses a Comissão de Saúde da Câmara vem apontando este problema e cobrando soluções ao Executivo. São muitos os casos, principalmente de idosos com fratura de fêmur que se agravam e por vezes levam a morte destas pessoas”, pontua a vereadora Gilda Beatriz.  

*Fotos da audiência realizada na 4ª Vara Cível sobre a inauguração das  nova UTI do HMNSE

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